sexta-feira, 8 de maio de 2009

AONDE VAI?

a dona Jú

Aonde vai?

Vou ali...

Ali, é nunca está aqui

é multiplicar a presença propagando o bem

é rezar estando na igreja ou em qualquer lugar

é dar a comunhão sendo a comunhão

é visitar um velho senil, um moribundo

ou uma criança

é celebrar a vida na família de outrem

deixando a sua em casa a espera.

-Calma, calma mais tarde volto.

é inquietar os vizinhos

-Por que não para em casa?

-Parar pra quê, se a vida é...

um eterno ir e vim,

é mobilidade, impulso, contingência

é dialético sopro divino.

Aonde vai?

Vou camuflar meus problemas

se preocupando com os problemas alheios

Lembre-se seu coração é grande

mas não acaba com a miséria do mundo.

Mas irei...!

Aonde vai?

Vou trilhar o caminho da bem-aventurança

sendo o próprio caminho.

Ir...

Verbo anómalo de extraordinária irregularidade.

Ir...

é o ficar, sabemos que estou preste a sair,

a viajar,

a caminhar.

Voltarei ao anoitecer para descansar.

Mas ficai sabemos que bate minhas pernas

no compasso rítmico dos corações aflitos,

chorarei as dores alheias

da mesma forma que estarei com um sorriso

sincero a todos que me receberem,

reconhecendo nos filhos que não são seus

os seus próprios filhos

cantarei sem saber cantar

no trajeto a ir ou a retornar

ou no meu não voltar que fica.

E que as pernas franzinas na se cansem

nem doam, nem se estropie

nos caminhos tortuosos da vida

pois a vida e tortuoso e íngreme,

E se lhe perguntarem para onde vai?

Diga apenas:

Vou para não ficar.

Com isso, que as palavras sejam afirmação,

que o desejo de viver lateje insensatamente

na vontade de vim a ser,

que a casa nunca seja prisão

que se desprenda todas amarras e correntes

e se despedace todos os espinhos e pedregulhos

por onde suas frágeis pernas prolongarem

seu quase 70 anos de caminho

nesse espaço de muitas ausências e de iguais lembranças.

Diresende 04/02/09

Nenhum comentário: