a dona Jú
Aonde vai?
Vou ali...
Ali, é nunca está aqui
é multiplicar a presença propagando o bem
é rezar estando na igreja ou em qualquer lugar
é dar a comunhão sendo a comunhão
é visitar um velho senil, um moribundo
ou uma criança
é celebrar a vida na família de outrem
deixando a sua em casa a espera.
-Calma, calma mais tarde volto.
é inquietar os vizinhos
-Por que não para em casa?
-Parar pra quê, se a vida é...
um eterno ir e vim,
é mobilidade, impulso, contingência
é dialético sopro divino.
Aonde vai?
Vou camuflar meus problemas
se preocupando com os problemas alheios
Lembre-se seu coração é grande
mas não acaba com a miséria do mundo.
Mas irei...!
Aonde vai?
Vou trilhar o caminho da bem-aventurança
sendo o próprio caminho.
Ir...
Verbo anómalo de extraordinária irregularidade.
Ir...
é o ficar, sabemos que estou preste a sair,
a viajar,
a caminhar.
Voltarei ao anoitecer para descansar.
Mas ficai sabemos que bate minhas pernas
no compasso rítmico dos corações aflitos,
chorarei as dores alheias
da mesma forma que estarei com um sorriso
sincero a todos que me receberem,
reconhecendo nos filhos que não são seus
os seus próprios filhos
cantarei sem saber cantar
no trajeto a ir ou a retornar
ou no meu não voltar que fica.
E que as pernas franzinas na se cansem
nem doam, nem se estropie
nos caminhos tortuosos da vida
pois a vida e tortuoso e íngreme,
E se lhe perguntarem para onde vai?
Diga apenas:
Vou para não ficar.
Com isso, que as palavras sejam afirmação,
que o desejo de viver lateje insensatamente
na vontade de vim a ser,
que a casa nunca seja prisão
que se desprenda todas amarras e correntes
e se despedace todos os espinhos e pedregulhos
por onde suas frágeis pernas prolongarem
seu quase 70 anos de caminho
nesse espaço de muitas ausências e de iguais lembranças.

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