Afasta-se melancolia miserável!
Como é amargo o gosto da bílis,
a boca inviolavelmente ressecada, acrimónia e estéril
dela não desponta um sorriso sincero,
as salivas são engolidas como ásperos pedregulhos
que rasgam a goela, que de tão ferida, já não se sente à dor.
Abutres e víboras asquerosas me cercam tornando o existir nefasto.
Se a águia de Prometeu devorasse meu fígado morreria envenenada.
Ah, se eu vomitasse esse demônio escarlate que tenho dentro de mim.
Porventura me aliviaria
Ou quiçá, seria forçado a ver a cruel criatura fedorenta que padeci em mim?
E isso me afligiria contundentemente.
Resta-me ser um escaravelho enrijecido,
porém minha casca não me protege de nada
a não ser do meu sorriso.
Como teria de sorri se me falta o sadismo para alegrar-me com as tragédias alheias?
Tão pouco não consigo rir das minhas sôfregas e assíduas desilusões.
Como irei sorri se minha tragédia é Argos traiçoeira
gárgula da noite escura que me açoita no clarão do dia?
A deplorável bestialidade humana é virulenta
me decepciona, me fustiga, me dilacera ferrenhamente,
Foi essa ignóbil que me rasgou o sorriso do rosto e costurou na cara a aflição.
Queria uma adaga para estripar o mundo,
seria um famigerado homicida sanguinolento
sem motivos para rir
mas com o mínimo de dignidade para existir.
Nesse mundo de percevejos e sanguessugas
a morte não é o caminho nem o consolo
e a vida é estúpida.
(Di Resende, 07/05/2008 00:58)

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