sábado, 3 de janeiro de 2009

Lembrança de um quarto nauseabundo

A ansiedade me deixara trepido,
o coração estava mais irrequieto
que asa de beija-flor na primavera.

Eu disse que queria falar contigo
e você disse que só poderia falar comigo ao meio dia
no intervalo de seu labor na padaria.

Estou aflito a esperá-la
nesse cubículo pequeno de paredes caiadas
que por ventura comportava no telhado
os restos mortais de um rato
que impregnava o ar com um odor suave de carniça.

Com quinze minutos de atraso
escuto sua voz no portão da frente
que me faz ficar atónico;
tudo que imaginara a dizer com pompas e galanteios
a ansiedade de tua presença me fez
facilmente esquecer.
Não sabia eu, que o amor inebriante
transmutava simples mortais
em onipotentes deuses do Olimpo,
quantas vezes a tive nos braços para
provar de sua voluptuosa humanidade
e agora ela se apresentava tão imperativa
na sua farda de trabalho,
irradiando todo o meu diminuto mundo de gnomo.

Iniciei falando de Otelo, O Mouro de Veneza,
aquele livro que lhe dei de presente de aniversário.
Eu próprio me tornara tão ingênuo quanto Otelo
a titubear antes da execução,
a me arrepender amargamente de ter
sacrificado um amor por ingenuidade.

No ímpeto te beijei
e você afavelmente aceitou meu beijo,
seus lábios macios como plumas angelicais
e seu toque místico em meu cachaço,
você cheirava a pão, tinha o gosto salutar de pão
e que poder transcendental o beijo tem...
pacificou meu espírito. E aquela força impetuosa
que me abrasava por dentro
foi facilmente domada por seus acalentos
transmutando-se em calmo rio a verter libidinosamente.
Um único beijo transformara um louco diabo
em cordeirinho na relva num bucólico fim de tarde,
A parti de então entendi toda apologia que
os românticos fizera ao ato de beijar, depois
você comentou sobre o fedor daquele quarto
mas, eu estava extasiado.
E aquele reencontro que foi o mais sublime e fugaz
foi o adeus inesperado que já se esperava.
Três meses depois tu estavas noiva com um holandês,
oito meses depois tinha casado com um baiano.
E eu, depois de dois anos,
correndo pelo crepúsculo
ao passar por um carcaça a beira estrada
e sentir o cheiro acre de podre
me lembrei de ti naquele quarto.

(Di Resende 19/06/2008 29:25)

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