quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TRANSPONHA AS ÁGUAS

Transponha as água
e matará o rio.
Mas nunca iram transpor o meu amor.

Eis que o rio que integra será o rio da guerra.
O vaticínio está lançada
pois as águas não caíram das nuvens
sem desastre ou morte.
E por mais que as salinas águas
matem os peixes e minha alma
queime em flâmulas de revolta
meu amor pelo velho nunca será transposto.

Transponha o rio
e minha indignação se tornara
em exacerbado verdugo a conclama
as legiões de ribeirinhos
que como ferro na mão de Sansão
rachara as paredes do palácio da
Babilônia brasileira, das hidrelétricas
que castra a vida e de seus canais da morte que
produz miséria e escraviza o povo.

Se não morrer de fome, nem nas mãos dos homens
a demolição de projetos do lucro maligno
me motivara a lutar,
a viver,
a amar.
Mas nunca iram transpor o meu amor.

Pelas águas que bebi,
se não morrer de fome,
nem nas mãos dos homens, não
morrerei de sede!
Não morrerei de sede!
De sede não morrerei!

Transponha as águas
e verá que seu governo será diminuto e frágil
na ira do povo, que canta a veemência
de 508 anos de exploração e resistência.
Se o frei não morrer de fome, nem os índios nas
mãos dos homens
de sede eu não morrerei.

Transponha o rio
Dádiva para este povo
acostumado com a bonança de suas cheias e
os deixem na penumbra do cavalheiros do Apocalipse
e verás os humildes se levantarem como vespas em alvoroço.
Mas não iram transpor o meu amor.

As lagrimas que transbordam agora
dos que vem a convalescença
do Velho Chico
não o revitalizaram,
mas o nosso sangue sim.

Floresça a indignação!
Torne-se grande e expansiva feito chuva.
Que na terra haja tempestades
torrentes populares de filhos
que não foge a luta
nem teme a própria morte
e o relâmpago da voz que clama
por justiça se faça sentir
no âmago dessa pátria amada Brasil.

Pois enquanto o frei não morre de fome
nem os índios na mãos dos homens
de sede eu não morrerei.


Transponha as água
e matara o rio,
matara o frei.
matara os peixes,
matara os índios,
matara o povo.
Mas nunca matara o meu amor pelo Velho.


Diresende escrito em 22/08/09 23:36
(Declamado em 05/10/2009 na I Semana da Água em comemoração aos 508 anos do Rio São Francisco em Penedo- Alagoas)

Um comentário:

PauloAfonso disse...

Meu caro diresende:
Achei de muito bom gosto seu poema. Tem a forma musicada que emociona.
Entretanto, o conteúdo requer algum reparo.
O rio não será transposto. Será transposta apenas uma pequena parcela de sua vazão.
Esta não é a primeira nem será a última vez que o Velho Chico socorre irmãos de outras bacias. Foi assim com a cidade de Aracaju, capital de Sergipe, hoje uma pujante metrópole, graças às águas transpostas do Velho Chico. Será assim com o sertão de Alagoas, que se beneficiará de outra transposição do Velho Chico, que já está em obras e que se chama "canal do sertão".
Afinal, um dos títulos do Rio São Francisco é de Rio da Integração Nacional.